Dois bairros diferentes, com doze horas de intervalo
Em nenhum outro sítio no Rio o carácter muda entre o dia e a noite de forma tão completa como na Lapa. Às 14h é um trecho ligeiramente desalinhado do extremo sul do Centro: os Arcos da Lapa - 42 arcos de pedra branca construídos em 1750 como aqueduto, hoje a transportar o bonde de Santa Teresa por cima - erguem-se sobre uma praça vazia, algumas pessoas a atravessar a pé, a maioria dos bares fechados com as cadeiras empilhadas.
Às 22h de uma sexta-feira, a mesma praça está lotada: samba ao vivo a sair de bares abertos para a rua, vendedores ambulantes a trabalhar coolers de cerveja e caipirinha, e uma multidão tão local quanto turística, o que é invulgar para a vida noturna do Rio e parte da razão pela qual vale a pena vir. Se aparecer às 16h à espera da versão noturna da Lapa, vai perguntar-se qual é o alarido - o conselho honesto é ver os Arcos brevemente de dia, se estiver a passar pelo Centro, e depois voltar depois de escurecer para a experiência a sério.
Como é realmente a noite
O núcleo da vida noturna da Lapa corre ao longo da Rua Joaquim Silva, da Rua do Riachuelo e das ruas mesmo debaixo e à volta dos Arcos. O Rio Scenarium, um clube de três andares cheio de móveis antigos e curiosidades, é a paragem mais famosa e a mais turística - bom samba ao vivo, entrada que custa R$60-100 (cerca de 12-20 dólares) dependendo da noite, vale a pena uma vez. O Carioca da Gema é mais pequeno, mais local, e possivelmente com melhor música por uma entrada mais barata. Os Democráticos, um salão de dança gafieira tradicional a uma curta caminhada, na Rua do Riachuelo, é onde vai ver casais a dançar de facto forró e samba de gafieira, em vez de atuarem para uma sala de telemóveis - vá se quiser a verdadeira versão social de dança da noite, em vez da versão de concerto.
Fora dos espaços pagos, a própria rua é o atrativo: bancas informais “pé-sujo” vendem chopp e caipirinha de coolers por R$8-15 (1,50-3 dólares), e por volta das 23h o quarteirão debaixo dos Arcos é uma verdadeira festa de rua, com rodas de samba a formarem-se espontaneamente. Esta parte não custa nada além do que se bebe, e é onde vive a maior parte da atmosfera real - os clubes pagos são bons, mas a rua é a verdadeira marca registada da Lapa.
um roteiro guiado de bares na Lapa com samba ao vivo tira o trabalho de decisão de uma primeira noite aqui - útil se não quiser ficar parado numa esquina a tentar perceber qual bar tem a melhor banda. Para algo mais calmo e íntimo, uma noite privada de samba com anfitriões locais troca a saltada entre multidões por uma noite com curadoria, com pessoas que realmente conhecem a cena.
A Escadaria Selarón, na fronteira
A Escadaria Selarón - a escadaria de azulejos cobertos de mosaicos de mais de 60 países, construída obsessivamente ao longo de duas décadas pelo artista chileno Jorge Selarón, até à sua morte em 2013 - fica mesmo na fronteira entre a Lapa e Santa Teresa, ligando a Rua Joaquim Silva à Ladeira de Santa Teresa. É um dos sítios mais fotografados do Rio e, a meio da manhã, um dos mais concorridos: conte com uma fila a sério para a foto clássica nos azulejos centrais amarelo-verde-azul. Vá antes das 9h ou depois das 17h se a quiser sem cinquenta pessoas no enquadramento. Funciona como paragem tanto do lado da Lapa quanto do lado de Santa Teresa - veja o guia de Santa Teresa para a rota do bonde que passa mesmo ao lado.
Como chegar, e - mais importante - como voltar
De metro, a Cinelândia é a estação mais próxima, cerca de 15 minutos a pé dos Arcos; um táxi ou Uber a partir de Copacabana ou Ipanema demora 25-35 minutos, dependendo do trânsito, e custa cerca de R$35-55 (7-11 dólares). Chegar é a parte fácil. Sair tarde é onde o verdadeiro planeamento importa: não caminhe dois ou três quarteirões para longe da multidão para “encontrar um sítio mais calmo” onde apanhar um carro - os pontos de recolha do Uber podem ficar mesmo na margem da festa, e essa curta caminhada até uma rua lateral vazia é exatamente o momento em que acontecem carteiristas e ocasionais assaltos, não a praça cheia em si. Defina o seu ponto de recolha num sítio com gente à volta, mantenha o telemóvel fora apenas o tempo suficiente para confirmar o condutor, e se um grupo estiver a ir na mesma direção, partilhe a viagem em vez de se separar sozinho depois da 1h.
Dentro da própria multidão, o risco é o furto, e não algo mais grave - a Lapa num sábado à noite é genuinamente densa, e multidões densas em qualquer parte do mundo são onde as carteiras e os telemóveis desaparecem. Leve um cartão e algum dinheiro em vez da carteira toda, mantenha o telemóvel num bolso com fecho ou botão, e não numa bolsa traseira, e evite joias chamativas. Nada disto é uma cautela específica da Lapa, mais do que uma cautela genérica para multidões de grande cidade - só importa mais aqui porque as multidões são maiores e ficam até mais tarde do que em quase qualquer outro sítio da cidade.
Uma breve história de por que a Lapa soa como soa
A reputação da Lapa como o distrito de vida noturna do Rio não é um exercício de marca recente - remonta aos anos 20 e 30, quando o bairro era o centro boémio do Rio, cheio de cabarés, cafés e o tipo de reputação libertina que o tornava tanto escandaloso quanto magnético para escritores, músicos e ricos em busca de uma noite fora da sua realidade. Essa era dourada esmoreceu ao longo de meados do século XX, à medida que a vida noturna do Rio se deslocava para sul, para Copacabana, e a Lapa passou décadas como um distrito degradado e semi-abandonado, com fama de perigo em vez de samba.
O seu renascimento começou nos anos 90 e acelerou ao longo dos anos 2000, à medida que músicos e donos de bares começaram a reocupar os edifícios antigos à volta dos Arcos, revivendo deliberadamente a identidade de samba e cabaré, em vez de inventar uma nova - razão pela qual grande parte da arquitetura diante da qual está a beber esta noite é genuinamente do século XIX, e não uma reconstrução temática.
A música, explicada
O que se ouve na Lapa não é um único género. O samba de raiz - tradicional, acústico, construído em torno do cavaquinho, do pandeiro e dos surdos - é o que toca em espaços como o Carioca da Gema e nas rodas de samba de rua que se formam espontaneamente debaixo dos Arcos. O choro, um estilo mais antigo e mais instrumental, com raízes no Rio do século XIX, surge em salas mais pequenas e tranquilas, e em sessões de domingo à tarde em alguns bares perto do Centro. Gafieira refere-se menos a um estilo musical do que a um formato de dança social - casais a dançar samba e forró juntos num ambiente de salão, o que se encontra nos Democráticos. Se só tiver uma noite, procure uma roda de samba de rua debaixo dos Arcos para a versão mais pura da experiência, e um clube pago como o Rio Scenarium se quiser um lugar garantido e um repertório polido de músicos profissionais.
Quanto custa, na realidade
Além das entradas e das bebidas de rua já mencionadas, conte com o táxi ou Uber em ambos os sentidos (R$35-55 em cada direção a partir da Zona Sul), e espere que a comida seja um pormenor secundário aqui, e não um destaque - a Lapa é construída em torno de beber e dançar, não de jantar, e a comida disponível perto dos clubes é sobretudo petiscos rápidos e funcionais de bar (coxinha, pastel, torresmo), e não uma refeição de destino. Uma noite completa fora - entrada num clube, várias rondas de bebidas de rua, transporte em ambos os sentidos - custa tipicamente algures entre R$150-300 (30-60 dólares) por pessoa, consideravelmente mais barato do que uma noite equivalente na maioria das cidades internacionais congéneres do Rio.
Combinar a Lapa com uma noite mais ampla
Uma forma comum e sensata de estruturar uma noite na Lapa é começar com o jantar noutro sítio - o Centro esvazia-se cedo demais para uma boa opção de jantar, por isso a maioria dos visitantes come na Zona Sul ou em Santa Teresa antes, e chega à Lapa por volta das 21h ou 22h, quando o bairro já está a ganhar vida. Tentar fazer uma refeição completa na própria Lapa antes de a noite arrancar costuma significar contentar-se com comida de bar mediana, em vez de um jantar a sério, por isso trate a Lapa como o destino pós-jantar para o qual foi construída, e não como uma noite completa em si mesma.
Se não bebe
A identidade da Lapa está intimamente ligada a beber, mas a própria música não exige uma caipirinha na mão para se apreciar - vários espaços, sobretudo os menores, mais tipo sala de audição, longe da faixa principal debaixo dos Arcos, são perfeitamente confortáveis para quem se contentar com um refrigerante ou um sumo natural enquanto vê a banda. As entradas aplicam-se independentemente do que se pede, por isso conte com esse custo, em vez de esperar um desconto por saltar a conta do bar. É uma fatia mais pequena da experiência da Lapa do que a versão de beber e dançar pela qual a maioria dos visitantes vem, mas a própria música é o verdadeiro atrativo para muitos fãs sérios de samba, e sustenta-se bem por si só.
Reservas, ou a falta delas
A maioria dos clubes de samba da Lapa não aceita reservas de forma formal - o Rio Scenarium é a exceção, onde reservar uma mesa com antecedência através do local ou de um operador turístico vale genuinamente a pena numa sexta ou sábado, já que os lugares para quem chega sem reserva enchem depressa, e a alternativa de ficar de pé perto da porta tem uma vista pior do palco. Espaços mais pequenos como o Carioca da Gema e os Democráticos funcionam por ordem de chegada; chegar até às 21h30-22h, antes de a noite atingir o pico, é a forma prática de garantir um lugar, em vez de ficar de pé durante todo o espetáculo.
O que vestir, e outras pequenas questões práticas
O código de vestuário da Lapa, tal como é, tende para o casual - calções, t-shirts e ténis ou sandálias são inteiramente normais, mesmo nos clubes pagos, e não há necessidade de se arranjar além do que vestiria para qualquer bar de clima quente. Leve dinheiro: embora muitos bares e os clubes pagos já aceitem cartão, os vendedores de rua debaixo dos Arcos ainda trabalham sobretudo só a dinheiro, e ter notas pequenas (R$5, R$10, R$20) acelera cada transação e evita chamar a atenção para uma carteira cheia. Um casaco leve ou um xaile vale a pena mesmo no verão, já que as noites podem arrefecer mais do que o calor diurno sugere, e dançar provoca suor que uma brisa vinda dos Arcos rapidamente encontra.
A Lapa e o Carnaval
A Lapa fica perto de várias rotas importantes de blocos de rua de Carnaval, e embora não seja a zona principal de desfiles como partes do Centro são, os seus bares e os próprios Arcos entram na atmosfera mais ampla do Carnaval nas semanas à volta do evento principal - conte com a zona ainda mais movimentada e ruidosa do que um fim de semana normal, se a sua viagem coincidir com a época de Carnaval. Veja o guia dos blocos de Carnaval para saber quais festas de rua específicas passam por esta parte da cidade, e o guia do Carnaval do Rio para o evento mais amplo.
A Lapa de dia: o que realmente vale a pena
Além dos próprios Arcos, a Rua do Lavradio é a rua das antiguidades da Lapa, morta durante a maior parte da semana, mas que vale a pena cronometrar em torno da Feira do Lavradio, um mercado de rua realizado no primeiro sábado do mês, com música ao vivo, bancas de comida e dezenas de antiquários a transbordar para o passeio - genuinamente uma das melhores atividades de sábado de dia em toda a cidade, se a data coincidir com a sua viagem. A Fundição Progresso, uma antiga fundição do século XIX reconvertida, recebe concertos e eventos culturais, e vale a pena verificar a programação independentemente da hora do dia. Fora disto, a Lapa de dia é sobretudo uma rota de passagem entre o Centro e Santa Teresa, mais do que um destino em si.
Perguntas frequentes sobre a Lapa
A Lapa é segura à noite?
É concorrida e animada, mais do que perigosa no sentido de crime violento, mas o furto é real nas zonas densas. O momento de risco específico é caminhar para longe da multidão para encontrar transporte - organize o seu ponto de recolha do Uber num sítio ainda com gente à volta, e não se aventure sozinho por ruas laterais tranquilas depois da 1h.
A que noite devo ir à Lapa?
Sexta e sábado são quando tanto a cena de rua quanto os clubes funcionam a todo o vapor. As noites de domingo a quinta são visivelmente mais tranquilas, com alguns espaços totalmente fechados.
Vale a pena visitar a Lapa de dia?
Brevemente - os Arcos da Lapa valem a pena ver e fotografar, e é uma paragem natural se estiver a caminhar entre o Centro e Santa Teresa. Além disso, a maior parte do que torna a Lapa interessante só acontece depois de escurecer.
Como vou da Lapa até Santa Teresa?
O bonde de Santa Teresa embarca perto da estação Carioca, no Centro, e atravessa os Arcos até Santa Teresa; a pé, a Escadaria Selarón sobe diretamente da Rua Joaquim Silva, na Lapa, até ao Largo do Guimarães, em Santa Teresa.
Preciso de reservar mesa nos clubes de samba?
Para o Rio Scenarium numa sexta ou sábado, chegar cedo ou reservar com antecedência evita uma longa fila à porta. Espaços mais pequenos como o Carioca da Gema costumam ser fáceis de entrar sem reserva, embora possa formar-se fila mais tarde na noite.
A Lapa é cara?
Não - as bebidas de rua custam uns reais, e mesmo as entradas dos clubes pagos são modestas para padrões internacionais. Reserve mais orçamento para o transporte (Uber em ambos os sentidos) do que para a própria noite.
Posso caminhar até à Lapa a partir de Copacabana ou Ipanema?
Não realisticamente - são vários quilómetros por zonas perto do Centro que não são um passeio agradável, sobretudo à noite. Metro até à Cinelândia, ou um Uber direto, são as opções sensatas.
Qual é a diferença entre a vida noturna da Lapa e a de Santa Teresa?
A Lapa é ao nível da rua, ruidosa, densa e samba maioritariamente em espaço público; a vida noturna de Santa Teresa é mais pequena, mais baseada em bares e restaurantes, e consideravelmente mais tranquila - veja o guia de Santa Teresa para esse lado da colina.
Preciso de dinheiro na Lapa?
Sim, na sua maioria. Os clubes pagos e alguns bares aceitam cartão, mas os vendedores de rua informais que vendem chopp e caipirinha debaixo dos Arcos só aceitam dinheiro, e as notas pequenas tornam cada transação mais rápida.
A Lapa fica mais cheia durante o Carnaval?
Sim - embora não seja a rota principal de desfiles, os bares da Lapa e a zona à volta dos Arcos veem um aumento notável de multidão e ruído durante a época de Carnaval, além de uma base de fim de semana já de si movimentada.


