Primeiro um distrito empresarial, depois um bairro histórico
A maior parte dos conselhos sobre a “cidade antiga” do Rio é escrita como se o Centro fosse um museu estático que se pode percorrer a qualquer hora. Não é. O Centro é onde os bancos, ministérios, escritórios de advocacia e agências de navegação do Rio realmente funcionam, e as suas ruas centenárias - Rua do Ouvidor, Travessa do Comércio, o quarteirão em torno da Praça XV - estão encaixadas entre torres de escritórios envidraçadas, cujos funcionários são a razão pela qual os balcões de sandes, as casas de sumos e a Confeitaria Colombo se mantêm em atividade.
Numa terça-feira ao meio-dia, esta é uma das partes mais vivas da cidade: fatos e chinelos a cruzarem-se, portas de igreja abertas, quiosques a fazer um bom negócio de pastéis e guaraná. Ao domingo, as mesmas ruas ficam quase abandonadas - grades fechadas, igrejas trancadas fora dos horários de missa, sem uma única fila em lado nenhum. Se só tiver um dia para o Centro, escolha um dia útil, de preferência nem sequer uma segunda-feira, já que alguns museus (incluindo o Museu do Amanhã) também fecham nesse dia.
Comece na Praça XV de Novembro (Praça Quinze), a praça onde a família real portuguesa desembarcou em 1808 e onde a família imperial do Brasil viveu mais tarde. O Paço Imperial, do lado norte da praça, foi sede do governo colonial e depois imperial; hoje é um centro cultural gratuito ou de entrada modesta, com exposições rotativas e um café de pátio, um bom sítio para se sentar antes de a caminhada aquecer. Daqui, passe pelo Arco do Teles até à Travessa do Comércio, uma estreita rua pedonal da era colonial, com casas de dois pisos hoje ladeadas de bares. À sexta-feira, a partir das 17h, este beco enche-se de trabalhadores de escritório de pé na rua com um chopp na mão - localmente chamado “descer para o Rio” ou simplesmente “beber na Trav” - genuinamente um dos melhores espetáculos gratuitos do bairro, e que só existe porque é dia útil.
Confeitaria Colombo e o núcleo Belle Époque
A dez minutos a pé da Praça XV, na Rua Gonçalves Dias, a Confeitaria Colombo serve café e pastelaria desde 1894, numa sala de espelhos de jacarandá e vitrais belgas que por si só já justifica a visita. É turística, o café não é nada de especial, e está a pagar pela sala - uma troca justa por quinze minutos aqui, menos justa para um almoço completo, onde a comida tem o preço do cenário, e não do prato. Há uma segunda filial, mais tranquila, dentro do Forte de Copacabana, se preferir a pastelaria com vista para o mar.
Mais dez minutos a pé fica a Cinelândia, a praça construída em torno do Theatro Municipal, a casa de ópera do Rio, vagamente inspirada na Ópera de Paris. As visitas guiadas decorrem na maioria dos dias úteis (verifique o dia em que vai estar lá - os horários mudam e o teatro fecha para ensaios sem grande aviso); mesmo por fora, o edifício e a praça em redor - ladeada pela Biblioteca Nacional e pelo Museu Nacional de Belas Artes - valem o desvio. A Cinelândia é também uma estação de metro, útil se as pernas já estiverem cansadas.
Para algo sem entrada paga nem gestão de multidões, o Real Gabinete Português de Leitura, perto da Praça Tiradentes, é uma biblioteca em funcionamento e aberta ao público: uma sala de leitura de dois pisos em ferro fundido, sob uma claraboia de vitral, um dos interiores mais fotografados da cidade e um dos menos visitados, porque quase ninguém coloca uma biblioteca num itinerário no Rio. É uma paragem de cinco minutos que compensa os dois minutos que leva a entrar e olhar para cima.
um passeio guiado a pé que une a arte de rua e o núcleo colonial do Centro é uma opção razoável se preferir que alguém narre a história em vez de a reconstituir a partir de placas, na sua maioria só em português.
Igrejas, e a única razão pela qual o domingo pode funcionar
O Centro tem mais igrejas barrocas e coloniais por quarteirão do que qualquer outro sítio no Rio, e a maioria mantém acesso apenas em horário comercial, trancadas fora das celebrações. As duas que valem a prioridade: o Mosteiro de São Bento, um mosteiro beneditino em funcionamento perto da Praça Mauá, com um interior tão dourado que surpreende face à fachada simples - a Missa de domingo às 10h inclui canto gregoriano entoado pelos monges, e é genuinamente uma das únicas boas razões para estar no Centro num fim de semana. A segunda é a Igreja de São Francisco da Penitência, cuja talha dourada rivaliza com qualquer coisa em Salvador ou Ouro Preto, escondida ao lado do Convento de Santo Antônio, perto do Largo da Carioca - aberta em manhãs de dias úteis, fechada para um longo almoço, por isso vá antes das 11h.
Como chegar e circular
O Metro Linha 1 para em Uruguaiana, Carioca e Cinelândia, todas dentro do núcleo histórico; os comboios da Linha 2 percorrem a mesma rota pelo Centro a caminho da Zona Norte. A partir de Copacabana ou Ipanema é uma viagem direta pela Linha 1, 20-30 minutos, e de longe a opção mais fácil - conduzir até ao Centro num dia útil significa enfrentar o trânsito de quem vai trabalhar e pagar por estacionamento escasso. As atrações principais ficam a 15 minutos a pé umas das outras, todas planas, com calçada de pedra em alguns troços, por isso use calçado próprio para caminhar, e não sandálias.
O Centro liga-se diretamente ao Porto Maravilha - o Museu do Amanhã e a reabilitação da orla da Praça Mauá ficam a 15 minutos a pé ou uma paragem de VLT a norte - e à Lapa, cujos Arcos ficam a 20 minutos a pé a sul, pela Avenida República do Chile. Um plano de dia razoável liga os três: o Centro de manhã, enquanto está fresco e aberto, o Porto Maravilha pelos museus depois do almoço, a Lapa ao início da noite para ver os Arcos antes de seguir para outro sítio para jantar, já que a própria cena de restaurantes da Lapa é fraca fora do horário noturno.
Segurança, em termos práticos
O perfil de risco do Centro é diferente dos bairros de praia: carteiristas em zonas pedonais densas (as ruas do mercado de Uruguaiana, a área imediatamente à volta da Praça Tiradentes), e não nada de mais grave, e cai drasticamente fora do horário de escritório, simplesmente porque não há ninguém para roubar nem para ser roubado - o que é, por si só, um tipo de problema depois de escurecer, quando ruas vazias não são sítio para se estar perdido a olhar para um telemóvel.
Mantenha os objetos de valor num bolso da frente ou numa mala a tiracolo fechada com fecho, não agite o telemóvel para fotos nos quarteirões movimentados do mercado, e planeie sair do Centro até ao início da noite, a menos que tenha uma razão específica (a Missa de domingo em São Bento, um evento noturno no Theatro Municipal) para lá estar mais tarde. Isto não é um aviso do tipo “o Rio é perigoso” - é o mesmo conselho que se daria para o distrito financeiro de qualquer grande cidade depois de os escritórios fecharem.
O Centro em dia de chuva
O Centro é uma das melhores opções do Rio para tempo de chuva, precisamente porque grande parte dele é interior - o Real Gabinete Português de Leitura, a visita guiada ao Theatro Municipal, as salas de exposição do Paço Imperial e o Museu Nacional de Belas Artes, perto da Cinelândia, dão-lhe um dia inteiro de atividade sem depender de céu limpo, ao contrário de quase tudo o resto coberto neste guia. Se a previsão para a sua viagem ao Rio incluir um dia de chuva, passar a visita ao Centro para esse dia, em vez de um dia de sol, é uma decisão sensata de planeamento de itinerário, que muitos visitantes de primeira viagem só pensam em fazer quando já estão encurralados. Veja o que fazer no Rio quando chove para a lista mais completa de opções interiores em toda a cidade.
Uma breve história, porque explica o traçado
O Centro é o Rio na sua forma mais antiga - o povoado fundado em 1565 cresceu a partir de, aproximadamente, onde hoje fica a Praça XV, e durante quase 250 anos esta pequena malha de ruas foi essencialmente toda a cidade.
Tudo mudou duas vezes, e depressa: primeiro em 1808, quando a família real portuguesa fugiu da invasão napoleónica de Portugal e transferiu toda a corte para o Rio, transformando instantaneamente um posto colonial avançado numa capital imperial e desencadeando uma onda de construção (o Paço Imperial, as igrejas, as primeiras ruas a sério); depois novamente após 1889, quando a monarquia caiu e o Centro se modernizou num distrito empresarial Belle Époque, demolindo grandes trechos do edificado colonial entre as décadas de 1900 e 1920 para construir a larga Avenida Rio Branco e estruturas grandiosas como o Theatro Municipal.
O que se percorre hoje é sobretudo essa segunda camada - arquitetura cívica Belle Époque - com bolsas da cidade colonial mais antiga a sobreviver na zona da Travessa do Comércio, especificamente porque era estreita e marginal o suficiente para não valer a pena demolir. O Rio deixou de ser a capital nacional em 1960, quando Brasília assumiu esse papel, e a importância do Centro encolheu de “sede do governo nacional” para “distrito financeiro e jurídico do Rio” - que é a versão que está agora a visitar.
Saara: o distrito comercial
A oeste da Praça Tiradentes, as ruas do Saara (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, embora ninguém lhe chame isso) formam o distrito comercial denso, caótico e maioritariamente popular do Rio - tecidos, bijuteria, artigos de carnaval, produtos importados, tudo vendido a partir de lojas apinhadas e bancas de rua a preços bem abaixo de qualquer coisa na Zona Sul. Não é uma atração turística no sentido convencional, mas é uma fatia legítima de como o Rio comum faz compras, e vale a pena atravessá-lo se tiver curiosidade sobre o aspeto da cidade longe de tudo o que é pensado para visitantes. Fica extremamente cheio à hora de almoço em dias úteis e nas manhãs de sábado - segure a mala à sua frente e mantenha o telemóvel no bolso, a mesma atenção que se aplicaria a qualquer mercado denso em qualquer lugar.
Um roteiro prático de meio dia
Se estiver a montar o seu próprio percurso em vez de se juntar a um passeio organizado, uma sequência viável começa na Praça XV por volta das 9h30, assim que o Paço Imperial abrir, depois a Travessa do Comércio e o Arco do Teles (melhor para fotos antes de chegar o movimento do almoço), a norte até ao Mosteiro de São Bento para o interior antes do encerramento do meio-dia, de volta pelo Saara se quiser o desvio ao mercado, depois até à Cinelândia e ao Theatro Municipal no início da tarde, terminando no Real Gabinete Português de Leitura, perto da Praça Tiradentes, antes de fechar.
São cerca de quatro horas de caminhada tranquila, tudo plano, tudo ao alcance da Linha 1 se as pernas cansarem a meio do caminho. Acrescente uma hora se também for visitar a igreja de São Francisco da Penitência, e escolha um dia sem chuva - as ruas coloniais estreitas do Centro alagam nas bermas mais depressa do que as avenidas mais largas da Zona Sul.
Onde comer além da Confeitaria Colombo
A cultura de almoço dos dias úteis no Centro é um dos seus pontos fortes subestimados: o Bar Luiz, aberto desde 1887 na Rua da Carioca, serve comida teuto-brasileira e chope bem gelado numa sala em madeira que mudou pouco ao longo das décadas - uma boa alternativa, sem pretensões, às pastelarias com preço de turista da Confeitaria Colombo. O Cedro do Líbano, perto dali, é um restaurante libanês de longa data, popular entre quem almoça vindo do escritório. As bancas de rua de kibe e coxinha concentram-se em torno das saídas de metro de Uruguaiana e Carioca, e são um tão bom indicador da verdadeira cultura gastronómica do Centro quanto qualquer restaurante formal. Nenhum destes é um restaurante de destino que valha uma viagem especial só por si - são o que torna uma manhã de caminhada pelo Centro agradável, em vez de uma lista de monumentos sem um bom sítio para sentar.
Onde fica, e o que há por perto
O Centro Histórico faz fronteira com a Lapa a sul e com o Porto Maravilha a norte, ao longo do porto, com Santa Teresa visível na colina acima - o histórico bonde para Santa Teresa embarca na estação Carioca, mesmo no meio deste distrito.
Se estiver a montar um dia de caminhada mais longo, o guia de caminhada pelo Centro Histórico apresenta um percurso mais completo com horários, e arte de rua no Rio cobre os murais espalhados pelas ruas mais recuadas do distrito, incluindo trabalho de Eduardo Kobra. Para contexto sobre por que razão o Centro se comporta de forma tão diferente do resto da cidade, o que os locais realmente fazem ao domingo vale a leitura antes de planear uma visita de fim de semana aqui.
Perguntas frequentes sobre o Centro Histórico
É seguro andar pelo Centro Histórico?
Durante o horário comercial, em dias úteis, sim, com a mesma atenção a carteiristas que usaria em qualquer multidão densa de centro de cidade. Esvazia-se rapidamente depois das 18h e aos fins de semana, e um distrito comercial vazio depois de escurecer não é sítio para andar a passear com um mapa aberto - planeie terminar a visita até ao início da noite.
Porque é que está tudo fechado ao domingo?
O Centro é um distrito empresarial, não um bairro residencial ou turístico - as igrejas, museus e balcões de almoço que o tornam interessante servem sobretudo a população de escritório que não está lá ao fim de semana. A única exceção fiável é a Missa de domingo às 10h, com canto gregoriano, no Mosteiro de São Bento.
De quanto tempo preciso para o Centro Histórico?
Um meio dia focado cobre a Praça XV, a Travessa do Comércio, a Confeitaria Colombo, o Theatro Municipal e o Real Gabinete Português de Leitura, a pé. Acrescente o Mosteiro de São Bento e fica mais perto de uma manhã inteira até à tarde.
Posso caminhar do Centro até à Lapa?
Sim - são 20 minutos a pé, num percurso plano, pela Avenida República do Chile, até aos Arcos da Lapa, ou algumas paragens de metro, se preferir sentar-se.
O Theatro Municipal está aberto para visitar por dentro?
Há visitas guiadas na maioria dos dias úteis, mas o horário muda consoante ensaios e eventos, por isso verifique o dia em que planeia ir, em vez de assumir um horário fixo.
Preciso de um guia para o Centro Histórico?
Não estritamente - as atrações principais são percorríveis a pé e ficam próximas umas das outras - mas um passeio guiado acrescenta contexto que as placas (na sua maioria só em português) não dão, sobretudo sobre a arquitetura colonial e a arte de rua sobreposta a ela.
Onde é o melhor almoço no Centro?
A Travessa do Comércio e as ruas em torno da Praça XV têm a maior concentração de bons balcões de almoço a preços razoáveis, pensados para trabalhadores de escritório e não para turistas - uma relação qualidade-preço muito melhor do que qualquer coisa perto do Theatro Municipal.
Com que devo combinar o Centro Histórico num só dia?
O Porto Maravilha (Museu do Amanhã, MAR, o Cais do Valongo) fica a 15 minutos a pé a norte e combina naturalmente com uma manhã no Centro - veja o guia do Porto Maravilha para saber como encadear os dois.


