Ilha Grande é o único sítio nesta costa que castiga a pressa. É uma ilha a sério, isolada dos carros por lei desde que uma colónia de leprosos do século XIX e uma prisão de segurança máxima do século XX mantiveram o desenvolvimento à distância - ambas já desapareceram, mas a regra de sem veículos ficou, e é a melhor coisa deste sítio.
Vale a pena Ilha Grande como excursão de um dia a partir do Rio, ou é preciso pernoitar? Uma excursão de um dia é tecnicamente possível - alguns passeios organizados fazem-na - mas significa 4 a 5 horas de condução e transferências de barco antes sequer de pôr o pé num trilho, num dia que também precisa de o trazer de volta ao Rio até à noite. Pernoitar uma noite na Vila do Abraão transforma uma correria apressada até uma praia numa viagem a sério: chega a Lopes Mendes sem olhar para o relógio, e tem a vila só para si assim que o último barco do dia parte, por volta das 17h.
Como se chega mesmo lá
Não há ponte nem ferry de carros para turistas até Ilha Grande - todas as rotas envolvem uma viagem de carro até à costa do continente, e depois um barco.
Via Mangaratiba (o trajeto mais curto pelo continente, cerca de 2 horas a partir do Rio de carro ou autocarro) - um ferry ou barco rápido atravessa até à Vila do Abraão em cerca de 60-90 minutos, dependendo da embarcação. Esta é a rota mais usada por viajantes com orçamento reduzido.
Via Angra dos Reis (cerca de 2,5 horas a partir do Rio) - escunas privadas e lanchas rápidas atravessam até ao Abraão em 60-90 minutos (escuna) ou 20-30 minutos (lancha rápida). Angra tem partidas mais frequentes e mais operadores, o que a torna a opção mais flexível se não tiver um horário fixo. Leia a página de Angra dos Reis se estiver a passar por lá.
Via Paraty (cerca de 4 horas a partir do Rio, mas o trajeto terrestre mais pitoresco) - os barcos até ao Abraão demoram 60-75 minutos e passam por parte da costa mais bonita desta viagem. Isto só faz sentido se Paraty já fizer parte da sua rota - veja Ilha Grande vs Paraty se estiver a decidir entre as duas ou a tentar encaixar ambas.
Seja qual for a forma escolhida, reserve o trajeto de barco com antecedência em época alta (dezembro-fevereiro, e à volta do Carnaval) - os pequenos operadores esgotam, e não há comboio, autocarro nem ponte como plano de reserva.
Transfer só de ida a partir do Rio, com o bilhete de barco incluído tira as dúvidas da combinação estrada-mais-barco - útil na sua primeira visita, quando ainda não sabe qual ponto de partida no continente se ajusta ao seu horário.
Vila do Abraão: a única vila a sério
Tudo na ilha passa pelo Abraão - é onde os barcos atracam, onde as pousadas e restaurantes se concentram, e onde começam os trilhos da maioria das caminhadas. Não tem carros, um punhado de ruas de terra batida, e uma praia mesmo à frente da vila que é agradável mas não é a razão pela qual veio.
Não há garantia de um multibanco a funcionar - traga mais dinheiro do que pensa que vai precisar, já que a aceitação de cartão é irregular fora das pousadas maiores. O wi-fi é lento e o sinal de telemóvel é pouco fiável assim que se sai do centro da vila; trate isto como uma vantagem, não um defeito.
Os restaurantes no Abraão vão de sítios simples por quilo (R$40-55 por um prato) a alguns locais à beira-mar que servem peixe fresco (R$60-90 um prato principal). Nada é caro para padrões do Rio, mas nada é barato também - isto é uma ilha onde tudo chega de barco ou é transportado.
A história da ilha explica os trechos vazios que vai notar depois da última pousada do Abraão. Ilha Grande esteve fechada ao desenvolvimento durante a maior parte do século XX - primeiro como local da colónia de leprosos do Lazareto, depois como sede do Cândido Mendes, uma prisão de segurança máxima que alojou alguns dos presos mais notórios do Brasil, até ser demolida em 1994. Esse encerramento manteve o resto da ilha quase inteiramente por desenvolver, o que explica precisamente porque razão tanto dela está hoje protegida como parque estadual (Parque Estadual da Ilha Grande), com uma cobertura florestal que não se encontra em quase mais nenhum sítio tão perto de uma grande cidade brasileira.
Onde ficar no Abraão
O alojamento concentra-se a cinco a dez minutos a pé do cais dos barcos, e o preço costuma acompanhar a distância à água e à praia. Hostels económicos com camas em dormitório custam cerca de R$60-100 por noite; um quarto duplo privado simples numa pousada familiar ronda os R$150-250; e um punhado de pousadas boutique mais agradáveis, para o lado mais afastado da vila ou junto à mais tranquila Praia Grande, custam R$350 ou mais, sobretudo entre dezembro e fevereiro.
Reservar com antecedência importa mais aqui do que em quase qualquer outro sítio nesta costa - o Abraão é pequeno, os barcos podem ficar genuinamente cheios em época alta, e aparecer sem reserva no final de dezembro arrisca não encontrar nada disponível. Fora dos períodos de pico (aproximadamente abril-junho e agosto-novembro), aparecer e perguntar por aí é mais realista, embora ainda não seja algo com que contar para uma sexta ou sábado à noite.
Lopes Mendes: a praia, e a forma honesta de lá chegar
Lopes Mendes costuma ser classificada entre as melhores praias do Brasil, e a areia branca fina e a ondulação constante justificam a reputação. Chegar lá a partir do Abraão tem duas opções, e são genuinamente viagens diferentes:
Barco + curta caminhada - um táxi aquático (cerca de R$40-60 por pessoa, partilhado) demora 45 minutos até um ponto de desembarque, seguido de uma caminhada de 30-40 minutos por um promontório baixo até à praia. É o que a maioria dos visitantes faz, e é a escolha sensata se quiser tempo de praia, e não tempo de trilho.
Caminhada direta a partir do Abraão - cerca de 2 horas em cada sentido, por um trilho costeiro através de mata, passando por praias mais pequenas (Palmas, Julia) que servem de boas paragens de descanso. Não é técnica, mas é uma caminhada a sério, no calor e humidade da ilha - leve mais água do que parece necessário. Fazer os dois sentidos num só dia são 4 horas de caminhada, além do tempo que ficar na praia; a maioria das pessoas vai de barco num sentido e caminha no outro, ou simplesmente vai de barco em ambos, se o tempo for curto.
Excursão guiada de trekking até Lopes Mendes a partir do Abraão cobre o percurso de caminhada com um guia, útil se preferir não navegar sozinho pelas bifurcações não assinaladas do trilho.
Lopes Mendes tem infraestrutura mínima - um par de bancas básicas de bebidas e petiscos perto dos pontos de acesso, na época, nada mais. Não há estrutura de sombra nem posto de resgate no extremo mais afastado da praia; leve o que precisar para o dia.
Outras coisas que valem a viagem de barco
Lagoa Azul é um ponto de snorkeling com água turquesa genuinamente límpida sobre um fundo rochoso, acessível por passeio de escuna a partir do Abraão - uma saída de meio dia, tipicamente combinada com uma ou duas outras paragens ao longo da costa.
Praia Preta e Praia do Aventureiro são praias mais distantes para quem acha Lopes Mendes demasiado concorrida - o Aventureiro, em particular, exige uma viagem de barco mais longa ou uma caminhada a sério, e tem infraestrutura mínima, o que é exatamente o seu atrativo.
Pico do Papagaio, o dramático pico em forma de bico de papagaio da ilha, é uma caminhada genuinamente exigente (5-6 horas de ida e volta, íngreme em alguns troços) para uma vista de cume sobre toda a baía - não é um passeio casual, e vale a pena verificar as condições e ir com um guia se não for um caminhante experiente.
Passeio de meio dia de escuna à Lagoa Azul a partir do Abraão é a forma mais fácil de ver o lado aquático da ilha sem organizar o seu próprio barco.
O que levar, e o que deixar para trás
Como tudo na ilha viaja de barco e não há praticamente trânsito de veículos, viajar com pouca bagagem importa genuinamente - vai carregar a sua própria mala do cais até à pousada por ruas de terra batida, por vezes uma caminhada considerável se ficar alojado para além do centro da vila. Uma mala flexível ou mochila funciona muito melhor do que uma mala com rodas, que vai lutar contra o terreno irregular.
Além do óbvio (fato de banho, protetor solar biodegradável, chapéu), leve dinheiro em notas pequenas, uma lanterna frontal ou lanterna do telemóvel para as ruas escuras da vila à noite, e repelente de insetos para os trilhos de mata e os mosquitos ao anoitecer. Deixe no alojamento no continente os objetos de valor de que não precisa, se estiver a fazer uma ida e volta a partir do Rio - o Abraão é geralmente seguro, mas não há grande vantagem em carregar algo que detestaria perder numa travessia de barco.
Mergulho e snorkeling à volta da ilha
As águas de Ilha Grande, sobretudo em torno da Lagoa Azul e de um punhado de baías mais pequenas no lado sul, menos visitado, da ilha, oferecem um snorkeling genuinamente decente - não a clareza excecional de Arraial do Cabo, mais adiante na costa, mas uma variedade razoável de peixes de recife e formações rochosas para quem trouxer a sua própria máscara e barbatanas ou as alugar numa saída de escuna. Um punhado de operadores locais de mergulho organiza mergulhos guiados a naufrágios próximos e locais de recife para mergulhadores certificados, embora seja uma cena mais pequena e menos desenvolvida do que o mergulho perto do Rio em geral.
Uma excursão de um dia vale mesmo a pena?
Seja honesto consigo mesmo quanto às contas. Uma excursão de um dia a partir do Rio costuma significar: 2-2,5 horas de condução até ao ponto de partida no continente, 30-90 minutos de barco até ao Abraão, algumas horas na ilha (realisticamente apenas o suficiente para a versão barco-mais-caminhada de Lopes Mendes, não a caminhada completa), e depois o mesmo trânsito de regresso. Porta a porta, isso é um dia de 12 horas por talvez 3-4 horas de tempo real na ilha - cansativo, e não deixa ver a ilha depois de esvaziar ao final da tarde, que é genuinamente uma das melhores partes.
Se conseguir arranjar uma noite, faça-o. As pousadas no Abraão custam entre cerca de R$150-250/noite por um duplo simples até R$400+ por algo mais agradável, e o custo extra compra-lhe uma Lopes Mendes sem pressa, uma noite numa vila sem carros nem ruído de trânsito, e um barco de manhã de regresso em vez de um prazo à tarde. Veja excursão de um dia ou pernoita na Costa Verde para a versão mais ampla desta troca em toda a costa, e o itinerário Rio e Costa Verde para saber como encaixar Ilha Grande ao lado de Paraty sem um horário apressado.
Excursão guiada de um dia a Ilha Grande via Angra dos Reis é a versão mais eficiente se uma excursão de um dia for genuinamente tudo o que o seu horário permite - agrupa os transfers, para não ter de gerir três reservas separadas.
Há também uma razão prática para pernoitar funcionar melhor logisticamente, e não só em termos de experiência: os horários de barco nesta costa não são densos. Perder um barco de regresso porque o dia de praia se prolongou, ou porque um passeio de escuna demorou mais do que o anunciado, pode significar esperar horas pela próxima partida - genuinamente perturbador se estiver com um regresso apertado no mesmo dia ao Rio, e sem problema nenhum se já estava a planear dormir na ilha.
Perguntas frequentes sobre Ilha Grande
Posso levar um carro para Ilha Grande?
Não. A ilha está sem carros desde as restrições da era da prisão, e manteve-se assim por escolha. Tudo se move a pé, de táxi aquático, ou ocasionalmente por um pequeno número de veículos de serviço para entregas - os turistas nunca conduzem aqui.
Lopes Mendes é mesmo assim tão boa, ou está sobrevalorizada?
Merece grande parte do entusiasmo - areia fina, uma ondulação aberta e longa, boa para bodysurf, e um cenário rodeado de mata em vez de edifícios. Fica cheia com os barcos de dia entre aproximadamente as 11h e as 15h; chegar cedo ou ficar para ver partir os últimos barcos dá-lhe uma praia muito mais vazia.
Quanto custa, aproximadamente, uma viagem a Ilha Grande?
Viajantes com orçamento reduzido conseguem fazer uma viagem de ida e volta, incluindo barco, uma noite numa pousada simples e comida, por cerca de R$350-500 no total. Acrescente passeios guiados (trekking até Lopes Mendes, escuna até à Lagoa Azul) e sobe rapidamente - esses custam cerca de R$150-250 por atividade.
Ilha Grande é segura?
Sim, em geral - é uma pequena ilha com uma economia dependente do turismo e um forte incentivo para se manter assim. Aplica-se o bom senso habitual de viagem: não deixe objetos de valor sem vigilância na praia, e mantenha-se nos trilhos marcados nas caminhadas mais longas, já que partes do interior são genuinamente remotas.
Preciso de reservar o barco com antecedência?
Em época alta (dezembro-fevereiro, Carnaval, férias escolares de julho), sim - os barcos esgotam e não há transporte alternativo. Fora da época de pico, muitas vezes consegue comprar bilhetes à chegada ao cais do continente, mas reservar com antecedência elimina o risco.
Posso levar bagagem com rodas, ou devo fazer as malas de forma diferente?
Faça as malas de forma diferente, se conseguir. As ruas do Abraão são caminhos de terra e areia batida, e uma mala com rodas torna-se um genuíno incómodo assim que se sai do cais - um saco de viagem flexível ou uma mochila que consiga carregar confortavelmente durante dez ou quinze minutos encaixa muito melhor na forma como a vila funciona.
Ilha Grande é boa para viajantes a solo?
Sim, genuinamente uma das melhores opções nesta costa para viagens a solo - o Abraão tem uma forte cultura de hostels e mochileiros, os passeios de barco e as caminhadas estão pensados para reservas individuais, e o ritmo sem carros e descontraído torna fácil conhecer outros viajantes sem grande esforço.
Um dia chega, ou devo planear mais tempo?
Uma noite é o mínimo prático para ver Lopes Mendes como deve ser, sem pressa. Caminhantes a sério que queiram o Pico do Papagaio ou as praias mais distantes, como o Aventureiro, devem planear duas noites.
O que devo levar que as pessoas costumam esquecer?
Dinheiro (os multibancos são pouco fiáveis), um saco estanque para o borrifo do barco, calçado de caminhada adequado se for fazer o trilho de Lopes Mendes a pé, e repelente de insetos - os troços de mata têm mosquitos, sobretudo ao anoitecer.
Qual é o melhor ponto de partida no continente - Angra, Mangaratiba ou Paraty?
Angra dos Reis tem geralmente os barcos mais frequentes e a travessia mais curta de lancha rápida. Mangaratiba é a viagem de carro mais curta a partir do Rio. Paraty só faz sentido se já estiver a parar lá - veja a comparação Ilha Grande vs Paraty para a troca mais completa.
Qual é a melhor altura do ano para visitar Ilha Grande?
Abril-junho e setembro-novembro atingem o ponto ideal - quente o suficiente para nadar, fora das multidões e da subida de preços de dezembro-fevereiro, e depois do pior da chuva de meio de ano, que pode tornar os trilhos de mata escorregadios e reduzir a visibilidade nos passeios de barco. Dezembro-fevereiro é a janela mais movimentada e mais cara, sobretudo à volta da passagem de ano e do Carnaval.
Há sinal de telemóvel e wi-fi na ilha?
Limitado. A Vila do Abraão tem sinal de telemóvel irregular e wi-fi lento nas pousadas e em alguns cafés, mas a receção cai quase por completo assim que se está num trilho ou numa praia fora da vila. Trate isto como uma verdadeira pausa digital, e não um pequeno incómodo - a maioria dos visitantes acaba por apreciar, depois de se ajustar.
Ilha Grande é o argumento mais forte nesta costa para pernoitar em vez de se apressar - veja excursões de um dia a partir do Rio para saber como se compara com as outras opções, ou vá diretamente a Paraty e Angra dos Reis para planear o resto do trecho da Costa Verde. Para uma rota mais longa e com várias paragens por toda a faixa da Costa Verde, o itinerário Rio e Costa Verde apresenta um ritmo realista, que dá à ilha o tempo de que realmente precisa, em vez de a espremer numa única tarde apressada.

